α΄ · ἡ λέξις
Uma palavra que faltava
O grego é uma língua de salas. Onde um acto pesava, a língua construía-lhe o lugar a partir do próprio acto: um verbo, e atrás dele o sufixo -τήριον — o lugar onde se faz. Ver tinha o seu θέατρον. Julgar tinha o seu δικαστήριον. Deliberar, trabalhar, rezar: a cada acto foi dada uma morada.
Uma sala nunca foi construída. Não existe palavra antiga para o lugar onde se faz o conhecer — como se o conhecimento, único entre todos os actos, acontecesse em parte nenhuma, não pisasse chão, pudesse ter-se sem estar de pé em lado algum.
Epistrion dá nome a essa sala. Não a encontrará em nenhum dicionário. Foi preciso fazê-la.
β΄ · ἐπίσταμαι
Conhecer é estar de pé
O verbo clássico do conhecer é ἐπίσταμαι, epístamai. Aberto, revela ἐπί, sobre, e ἵστημι, estar de pé. Saber alguma coisa, na mais antiga gramática que temos do conhecimento, é estar de pé sobre ela.
Não é uma leitura poética: é a anatomia nua da palavra, e a metáfora sobreviveu a todos os impérios que a falaram. O português guarda-a na sua gramática mais funda: tem dois verbos ser, e o que diz onde — estar — vem do latim stare, estar de pé. Estar no mundo é, letra a letra, estar plantado nele. Por isso um argumento se sustenta ou não se tem em pé; por isso se toma posição e se defende um ponto de vista. O conhecimento, em qualquer língua onde se abra a palavra, revela-se um apoio.
Platão traçou a fronteira com estas palavras exactas. A opinião — a δόξα — anda à deriva; no Ménon, diz que as opiniões verdadeiras fogem como as estátuas de Dédalo enquanto não forem atadas. A ἐπιστήμη, o conhecimento, é o que ficou amarrado: o que está de pé. Entre crer e saber vai a diferença entre flutuar e estar de pé.
- ἐπίsobre
- ἵστημιestar de pé
- -τήριονo lugar onde se faz
γ΄ · -τήριον
O sufixo dos lugares
Acrescente-se -τήριον a um verbo: o acto recebe chão, paredes, uma porta. A série é perfeitamente regular. Só a última linha ficou por preencher:
- θέατρονo lugar do verteatro
- ἀκροατήριονo lugar do ouvirauditório
- δικαστήριονo lugar do julgartribunal
- βουλευτήριονo lugar do deliberarsala do conselho
- ἐργαστήριονo lugar do trabalharoficina
- ἐπιστήριονo lugar do conhecerepistrion
As palavras de lugar gastam-se pelo caminho. μοναστήριον, caminhando para oeste pelo latim e pelo inglês antigo, chegou como minster. ἐπιστήριον, polida na mesma estrada, chega: epistrion.
δ΄ · ποῦ;
Os lugares de Pessoa
Houve um homem que levou esta palavra ao limite, e escreveu em português. Fernando Pessoa percebeu que, para conhecer de outro modo, não basta pensar outra coisa: é preciso estar noutro lugar. Como não podia sair de si, construiu outros lugares dentro de si — e deu-lhes nomes e biografias: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos. Os heterónimos não são pseudónimos; são epistria — salas onde se está de pé para ver o mundo de uma maneira que Pessoa, do seu próprio lugar, não podia ver. «Sê plural como o universo», escreveu: multiplica os lugares onde estás.
Caeiro, o mestre de todos eles, quis ser o olhar sem lugar — «O meu olhar é nítido como um girassol», ver sem filosofia, sem memória, sem ponto de vista. Mas Caeiro é, ele próprio, uma construção: a prova, por existência, de que até o olhar «de parte nenhuma» precisa de um lugar inventado de onde olhar. Não há vista de lado nenhum. O que uma mente pode ver fixa-se pelo lugar onde está, e cada época, de pé no seu próprio chão, chamou verdade à paisagem que dali se avista. Quando Michel Foucault precisou de um nome para o chão em que uma época inteira está sem o ver, foi buscar a mesma raiz grega: épistémè.
O epistrion, portanto, não é onde a verdade se guarda. É o chão debaixo de uma afirmação. De tudo o que se diz sabido cabem duas perguntas, e a segunda faz-se muito menos do que merece: é verdade? — e onde é preciso estar de pé, para o ver?
ε΄ · γνῶθι
A máxima
Duas palavras estavam gravadas sobre a porta de Delfos:
O epistrion pede a coordenada que faltava — não como aviso, mas como definição: saber onde se está é o começo de estar em qualquer parte. A palavra desta página dá nome à sala em que esteve a ler até aqui.
Está de pé dentro dela, agora.